God Bless The Mess

A bagunça tem se mostrado uma grande promotora de mudanças.
 Depois de uma guerra, países precisam ser reconstruídos. O nascimento de um 
filho não planejado obriga uma família a repensar seus gastos e as acomodações 
de sua casa. Um time rebaixado necessita rever sua folha de pagamento e buscar 
uma nova empresa disposta a patrocinar jogadores da segunda divisão. A internet 
está conseguindo, deliciosamente, bagunçar a maneira como as pessoas se relacionam,
como elas compram, como trabalham e, é claro, como se comunicam.

A popularização da web e de todos os novos dispositivos conectados a ela, estão sendo sentidos por todos os mercados. A propaganda, por talvez ser o setor mais sensível 
ao “novo”, vive hoje um de seus maiores desafios: encontrar novas formas, novas ferramentas de estabelecer um diálogo, de um jeito mais próximo e criativo, com um número cada vez maior de públicos.

Diante deste quadro, o faro dos planejadores vem, naturalmente, ganhando força 
dentro das agências de Propaganda. Mais do que apenas nortear o desenvolvimento 
de um conceito, de uma linguagem visual, o planejamento deve buscar identificar 
necessidades em um cliente, que até o próprio desconheça. Pois se antecipar continua 
sendo o melhor caminho para se estar à frente.

Domingo de manhã

Rua Oscar Freire. O porteiro conversa com um entregador do Pão de Açucar e só aperta o botão para abrir a porta do prédio depois que tento sair, forço o puxador e faço um certo barulho. Os domingos são parecidos nos jardins. Os executivos arriscam uma bermuda cáqui e algum tênis branco para passear com a família. Vejo um possível estudante de Administração, de uns 20 anos, estacionando uma S.U.V. importada, da qual salta a sua namorada dourada. A menina me faz lembrar daquela música horrível do não menos horrível Seu Jorge. Dobro a esquerda, subindo a Augusta em direção a Paulista. Paro para trocar no IPhone o Minutemen de 84 pelo Dinosaur Jr de 2009. Fico pensando em como Lou Barlow e seus comparças continuam detonando depois de tanto tempo. Na frente da Ouro Fino, reparo em duas meninas paradas na porta galeria. É nítido que não saem de casa antes de passar por uma meia dúzia de blogs de moda. A mão direita segura o cigarro e braço esquerdo dá apoio. O wayferer espelhado, possivelmente falso, permite que elas analisem as pessoas que sobem a rua, sem serem tão notadas. Na farmácia, vejo um senhor vestindo Abercrombie dos pés a cabeça, saindo da loja de mãos dadas com uma mulher uns 20 anos mais jovem que ele. É óbvio que ela também traja uma camiseta bem justa da marca do alce. O aplique da peça fica até meio distorcido devido a quantidade de mililitros de silicone que o velho presenteou a menina.
Parace que os dois acabaram de chegar de Miami. Ela é uma espécie de troféu para aquele senhor de raros cabelos grisalhos penteados para trás. Ela e o famoso comprimido azul são tudo o que ele precisa para ser feliz. Confiro se não estou usando nada da A&F. Desvio da barraca de pastel na esquina da Lorena para tomar café na cafeteria que tem a fachada semelhante a de uma Apple store. As mesas de fora são disputadas pelos donos de cães. Parece que quanto mais forte um gay é, menor precisa ser o seu cachorro. Um espresso de 30 ml e um bagel com cream-cheese me custa 11 Reais. Acabo meu café da manhã em menos de 10 minutos. Percebo que cansei de ver gente e começo a achar que todo domingo que não volto para cidade que nasci, para almoçar com a minha família, acabo potencializando todos os meus preconceitos. É hora de voltar para casa. Ver tudo aquilo que vi na ida, escolher algum livro ou revista e não assistir Taxi Driver.

Estamos sempre mais perto da insatisfação do que da felicidade

Afirmo isso não por ser pessimista. Acontece que de um tempo para cá tenho observado uma insatisfação crescente em pessoas de todas idades. Se eu acusasse a mídia, o cinema e a publicidade, estaria correndo o risco de parecer hipócrita e ingênuo como um estudante no 1º ano da faculdade.

Mas, a esta altura do campeonato, não me interessa achar os culpados. O que me interessa é conseguir brecar, pelo menos em mim, esta onda que avança numa velocidade bem maior do que as obras da Linha Amarela do Metrô paulistano.

Acredito que a insatisfação tenha um papel importante e até positivo, quando ela não bate à nossa porta 5 vezes ao dia. Ela é importante a medida que nos motiva a procurar mudar, a melhorar algo em nós.

Ao mesmo tempo, é perigosa quando deixamos que ela crie raízes na nossa mente e no nosso coração. Frequentemente vejo meus sobrinhos exigindo dos meus irmãos novos video-games. “Pai, eu preciso do novo Nintendo DS porque agora ele tira foto”. Da mesma maneira, eu penso se devo comprar o novo Iphone já que ele é mais rápido, filma e tem uma bússola. É claro que a insatisfação não se limita aos gadgets do momento. Quantos caras não trocam suas esposas por outras mais novas, com peitos maiores e mais firmes. Assim como as mulheres largam suas famílias por homens mais bem sucedidos, com SUVs mais altas e, às vezes, com alguns centímetros a mais de bíceps ou em outras partes do corpo.

Certamente não existe uma fórmula para a felicidade, por mais que o assunto lote
prateleiras de livrarias, milhões de igrejas pelo mundo e o bolso de vários pilantras.
Só posso concluir que nosso erro é embalar na ideia de uma “felicidade quantitativa”, deixando de buscar uma “felicidade qualitativa”. E, para não deixar de ser ligeiramente negativo, afirmo que continuaremos sempre mais próximos da insatisfação, enquanto estivermos abraçados a crença de que: “mais é melhor, logo seremos mais felizes”.

gabriless


seeders & leechers

areyoushare

Who stole the colors of my dreams?*

cloro que sim

Diálogo que tive há uns 4 anos atrás, quando eu estudava publicidade e me dedicava mais às artes:


(Alguém tentando me “ajudar”)

- Meu, você tem um puta talento, é criativo, tem bom gosto.

Mas eu acho que esse negócio de camiseta é foda. Num dá pra viver disso.

(Gabriel, guri, estúpido)

-  Ah, eu sei que é difícil, mas já tá rolando uns trampos.

Estou vendendo as camisetas numas lojas legais.

(Alguém tentando  “abrir meus olhos”)

- Pô, isso é bacana.

Agora, imagina quantas camisetas você precisa vender para se bancar.

(Gabriel, guri, sem noção nenhuma de gestão de negócios)

- Camiseta é baratinho, tenho um canal para pegar umas que a Hering fabrica para exportação.

(Alguém insistindo em “abrir meus olhos”)

- Os custos não são só estes.  Você gasta um dinheirão para estampar teus desenhos com:

fotolito, telas de serigrafia, tinta, hora de trabalho de quem estampa, transporte etc.

(Gabriel, guri, romântico )

- Como hora de trabalho? Eu mesmo estampo as camisetas, a hora que eu quiser.

Faço uma por uma e nunca uso a mesma cor de tinta duas vezes. Aqui, não tem fordismo!

(Alguém perdendo a paciência comigo)

- O que não tem aqui é visão de negócio.

Que diabos você anda aprendendo nas aulas de publicidade?

(Gabriel, burro, cuspindo pra cima)

-  Sinceramente, estou aprendendo que uma agência de publicidade é o último lugar onde eu quero trabalhar.

Hoje, malemá eu uso camiseta. E o tonner da LaseJet é único tipo de tinta que eu tenho acesso durante a semana.

*O título deste post foi extraído de uma música da finada banda alemã Tidal,
que tocou no Brasil em 2001 e continua tocando na minha cabeça até hoje.

Para a Disney todas as crianças são iguais.

Algumas semanas atrás, eu estava em Jundiaí e minha sobrinha, que mora lá, me disse:  Tio Gá, vai começar a vender o novo DVD do High School Musical. É o 3, o ano da formatura. Aqui, vai demorar para chegar. Será que você pode trazer para mim? De volta à capital paulista, minha missão era encontrar o tal HSM 3. Na Fnac da paulista, percebi que havia algumas versões deste lançamento: DVD simples, Duplo e um Kit com o filme e uma camiseta. A garotinha é leonina, assim como eu, sabia que a camiseta seria um sucesso garantido. O problema é que a menina tem 8 aninhos, almoça e janta muito bem. Come que é uma beleza! Pesa uns 42 Kg, um pouco oversize para idade. Minha dúvida era saber o tamanho da camiseta, já que a caixa dizia: Tamanho único PP. Se a camiseta ficasse apertada, minha sobrinha ficaria totalmente frustrada. Me dei conta que aquele simples Kit poderia fazer com que ela crescesse complexada por não ser igual, ou pelo pesar como, as celebridades teens fabricadas pela Disney.

Expliquei o caso para um vendedor.  Ele tratou de abrir o kit para que eu pudesse saber qual o tamanho que o Mickey imagina que todas as crianças brasileiras vestem. Mais seguro de minha compra, mandei embrulhar para presente e acabei ganhando alguns pontinhos com a minha sobrinha fofa fã do Troy Bolton.

Este episódio me lembrou da música “Mickey” da banda capixaba Mukeka di Rato, que diz: “…Mickey não gosta criança latina. Mickey rejeita criança brasileira…”

Estudo para cartaz do coletivo Verdurada

eco



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